Durante o dia de ontem, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, comunicou por meio de suas redes sociais que seu país aceitou um pedido de assistência das Forças Armadas dos Estados Unidos para interceptar drones Shahed iranianos, os quais são frequentemente utilizados pelas tropas russas em seus ataques aéreos. Em particular, Kiev conta com uma importante quantidade de pessoal já especializado em táticas de combate contra esse tipo de sistema não tripulado e com meios de diversos tipos para conformar suas redes de defesa, motivo pelo qual o mandatário já deu a ordem de garantir a ajuda requerida por Washington enquanto a guerra no Oriente Médio segue seu curso.

Retomando as declarações do próprio Zelensky na rede social X: “Recebemos um pedido dos Estados Unidos para apoio específico na proteção contra os ‘shaheds’ na região do Oriente Médio. Dei instruções para fornecer os meios necessários e garantir a presença de especialistas ucranianos que possam assegurar a segurança requerida. A Ucrânia apoia os parceiros que contribuem para garantir nossa segurança e proteger a vida do nosso povo. Glória à Ucrânia!”

Los presidentes de Ucrania y EE.UU.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e seu homólogo norte-americano Donald Trump

De acordo com o que foi reportado por meios de comunicação norte-americanos, os EUA solicitaram ajuda à Ucrânia após os ataques realizados pelo Irã contra múltiplas bases situadas em países aliados da região, onde já foram registradas baixas entre os soldados ali desdobrados. Somado a isso, no âmbito de uma entrevista telefônica na qual foi consultado sobre a possibilidade de Kiev prestar assistência no combate contra os drones empregados pelo Irã, o presidente Donald Trump afirmou que aceitaria ajuda de seus aliados. Em suas próprias palavras: “Certamente aceitarei, vocês sabem, qualquer ajuda de qualquer país”.

Nesse sentido, cabe destacar que a ajuda enviada pela Ucrânia, embora ainda não tenha sido detalhada pelo próprio Zelensky ou por seu ministério da Defesa, poderia assumir diferentes formas. Além de poder oferecer treinamento de efetivos em táticas e no uso de sistemas antidrones, é importante lembrar que o país se tornou um pioneiro no desenvolvimento de novos drones interceptadores de baixo custo especialmente projetados para o abate de Shaheds, consolidando uma capacidade industrial que poderia ser impulsionada por uma maior demanda no exterior. Na terça-feira passada, o governo ucraniano inclusive mencionou a possibilidade de fornecer esse tipo de sistema em troca de novos lotes de mísseis para suas baterias antiaéreas, embora não esteja claro se se trata de uma proposta formalizada.

Un oficial ucraniano junto a los restos de un Shahed derribado
Um oficial ucraniano junto aos destroços de um Shahed abatido

Pensando no futuro, a decisão ucraniana também reflete uma preocupação com a estreita vinculação existente entre Irã e Rússia, na medida em que isso impacta o desenvolvimento de seu próprio conflito, o qual já dura mais de quatro anos. Segundo o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha: “O Irã prejudicou a segurança europeia ao apoiar diretamente a agressão da Rússia contra a Ucrânia (…) O regime iraniano causou grande sofrimento em nosso país ao vender drones ‘Shahed’ à Rússia, mas também semeou caos, morte e destruição em sua própria região e ao redor do mundo.”

A questão do Oriente Médio também tem suscitado novas preocupações entre os estrategistas militares ucranianos, especialmente ao considerar o impacto que uma guerra prolongada poderia ter no envio de mais ajuda militar por parte dos aliados ocidentais, que agora parecem voltar suas atenções para outra região do mundo. Tal como reportamos em meados de fevereiro, os parceiros europeus de Kiev já enfrentam o desafio de contar com reservas de munições esgotadas, sendo um caso ilustrativo o anúncio alemão sobre o envio de apenas cinco novos mísseis antiaéreos PAC-3 para equipar as baterias Patriot ucranianas.

Un soldado ucraniano frente a un sistema Patriot
Um soldado ucraniano diante de um sistema Patriot – Bundeswehr

O uso de drones Shahed no Oriente Médio

Diante do cenário anteriormente apresentado, também é útil abordar como o Irã vem utilizando seus drones Shahed desde o início da guerra após os ataques israelenses e norte-americanos, cujo principal objetivo, segundo se afirma, é eliminar as ambições do regime teocrático de adquirir armamento nuclear que coloque em risco os interesses desses dois países na região.

Na data de 5 de março, relatórios oficiais enviados por diferentes ministérios da defesa no Oriente Médio apontam que mais de 1.000 drones teriam sido lançados a partir do Irã, sendo a grande maioria deles interceptada pelas redes de defesa aérea. Detalhando os números disponíveis até o momento, os Emirados Árabes Unidos indicaram que detectaram cerca de 1.072 sistemas não tripulados em seu espaço aéreo, com aproximadamente 1.001 deles abatidos. O Catar também relatou cerca de 39 drones detectados e 24 deles neutralizados, enquanto o Kuwait afirma ter interceptado cerca de 384 drones e a Arábia Saudita fala em mais 123 exemplares.

Un drone Shahed derribado en Kuwait
Um drone Shahed abatido no Kuwait

Comparado com os números provenientes da Ucrânia, trata-se de uma fração ínfima do total que a Rússia teria empregado desde o início de sua invasão, o que permite evidenciar a experiência adquirida por Kiev no combate contra esse tipo de sistema. Em termos concretos, autoridades ucranianas indicaram que mais de 54.000 drones da família Shahed foram utilizados durante o ano de 2025, sendo cerca de 19.000 deles lançados durante o inverno principalmente para colocar em risco as infraestruturas energéticas do país.

Por fim, deve-se considerar que, além da própria Ucrânia e dos Estados Unidos, a própria União Europeia também reconheceu a grande experiência adquirida por Kiev nesse âmbito, pensando em como ela poderia contribuir para a conformação de uma rede de defesa própria capaz de resistir a ataques com drones e para assistir aliados do bloco no Oriente Médio. A alta representante da União para os Assuntos Exteriores, Kaja Kallas, assinalou que esse seria um dos temas de conversa na reunião que será realizada entre os chanceleres da UE e do Golfo.

Imagens utilizadas de forma ilustrativa

Pode te interessar: Assim foi o abate de um dos Yak-130 transferidos pela Rússia à Força Aérea do Irã

Joel Luchetta
Joel Francisco Luchetta - Redator na Zona Militar - Escrevo sobre diversos temas de defesa, com especial interesse nos assuntos relacionados com a Europa. E-mail de contacto: joel.luchetta6@gmail.com

DEJA UNA RESPUESTA

Por favor deje su comentario
Ingrese su nombre aquí

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.