Os conflitos recentes, em especial a guerra na Ucrânia, recolocaram a Artilharia no centro das discussões sobre o combate terrestre moderno. A experiência no campo de batalha demonstrou que, mais do que alcance e volume de fogo, a eficácia operacional passou a depender da capacidade de integrar sensores, sistemas de comando e plataformas de tiro em tempo praticamente real. A redução do intervalo entre a identificação de um alvo e sua neutralização tornou-se fator decisivo, impulsionando uma transformação que vem sendo incorporada progressivamente por diversas forças armadas, incluindo o Exército Brasileiro.

Nesse cenário de modernização, destaca-se o desenvolvimento do Sistema Digitalizado da Artilharia de Campanha (SISDAC), solução que representa um salto qualitativo na forma como o apoio de fogo é planejado, coordenado e executado. Desenvolvido com significativa participação da Base Industrial de Defesa nacional, o sistema integra navegação, comunicações, direção de tiro e compartilhamento de dados em um ambiente digital único, ampliando a consciência situacional e permitindo maior precisão e agilidade nas decisões operacionais.

A trajetória que resultou no SISDAC não surgiu de forma repentina. Ela é fruto de um processo evolutivo iniciado ainda no final do século passado, com o desenvolvimento do Sistema Gênesis pela Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL). À época, o Gênesis representou uma inovação ao introduzir a automação de cálculos balísticos e do planejamento de fogos, reduzindo a dependência de processos manuais e permitindo que a Força Terrestre acumulasse experiência fundamental para a construção de soluções digitais mais avançadas.

Esse processo de transformação tecnológica ganhou novo impulso com a modernização dos obuseiros autopropulsados M109 para o padrão M109 A5+BR. A incorporação de sistemas modernos de navegação, comunicações e pontaria elevou o patamar tecnológico da Artilharia brasileira, mas também evidenciou a necessidade de uma arquitetura digital capaz de integrar essas capacidades de forma coordenada. O SISDAC surge justamente para preencher essa lacuna, reduzindo o ciclo decisório e ampliando a eficiência do apoio de fogo em cenários operacionais cada vez mais dinâmicos.

A implementação do sistema terá impacto direto em unidades estratégicas do Exército Brasileiro, como o 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado (3º GAC AP), o tradicional Regimento Mallet, integrante da 6ª Brigada de Infantaria Blindada. Sediada em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, a Brigada Niederauer é considerada uma das principais grandes unidades da Força Terrestre, reunindo tropas de manobra, defesa antiaérea, apoio de fogo, engenharia e elementos logísticos, destacando-se historicamente na incorporação de novas capacidades operacionais.

Informações obtidas junto ao Comando da 6ª Brigada de Infantaria Blindada, liderado pelo General de Brigada André Luiz de Souza Dias, indicam que a implantação do SISDAC representa um avanço significativo no processo de modernização da Artilharia nacional. A digitalização dos sistemas de direção e coordenação de fogos tende a ampliar os níveis de interoperabilidade, aumentar a precisão dos engajamentos e reduzir o tempo de resposta das unidades subordinadas à Brigada, características essenciais nos atuais ambientes de combate de alta intensidade.

Para além dos ganhos operacionais, o SISDAC possui forte relevância estratégica ao fortalecer a autonomia tecnológica brasileira em um dos segmentos mais sensíveis do setor de defesa. Sistemas de comando e controle e coordenação de fogos raramente são transferidos integralmente por fornecedores estrangeiros, o que torna o desenvolvimento nacional um fator determinante para a preservação de conhecimento crítico, adaptação às necessidades doutrinárias próprias e fortalecimento da Base Industrial de Defesa.

A consolidação do SISDAC, cuja implantação deverá avançar progressivamente nos próximos anos, acompanha uma tendência global na qual a informação, a integração de sistemas e a velocidade de decisão passam a exercer papel tão relevante quanto o poder destrutivo dos armamentos. Nesse contexto, a modernização da Artilharia brasileira evidencia o esforço do país em manter suas forças preparadas para os desafios do ambiente operacional contemporâneo, combinando tradição, inovação tecnológica e visão estratégica de longo prazo.

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