Diante da necessidade de modernizar suas aeronaves de asa rotativa, o Exército Argentino (EA) está avaliando diversas opções para retomar o processo de aquisição dos helicópteros UH-60 Black Hawk, após o cancelamento da licitação pública iniciada no final de 2024 por razões orçamentárias. Essa iniciativa responde à urgência de substituir os helicópteros Bell UH-1H e Huey II, já com mais de cinco décadas de serviço, e busca revitalizar um programa considerado essencial para a recuperação das capacidades de transporte, assalto aéreo e apoio a operações conjuntas.

O processo de aquisição de 2024, originalmente destinado à incorporação de três unidades por meio da licitação pública 84/7-0942-LPU24, faria parte do programa de Vendas Militares Estrangeiras (FMS) dos EUA. No entanto, foi oficialmente cancelado em janeiro de 2025 devido à falta de financiamento. De acordo com o dossiê administrativo, o processo de licitação foi adiado “devido a realocações orçamentárias e à pendência da aprovação do Orçamento Nacional de 2025”, o que resultou no cancelamento do contrato. Além de sua natureza administrativa, a decisão evidenciou a dificuldade estrutural que o Exército enfrenta para manter um plano contínuo de reequipamento, dadas as restrições financeiras e a falta de verbas alocadas para grandes investimentos em equipamentos.
Enquanto isso, o Estado-Maior do Exército intensificou os contatos com parceiros estratégicos para reativar o projeto. A recente visita do Diretor de Aviação do Exército, Brigadeiro-General Sergio Di Clemente, ao Centro da Guarda Nacional da Geórgia fez parte do Programa de Parceria Estadual com os Estados Unidos, que visa fortalecer a interoperabilidade e aprofundar os laços institucionais entre as duas forças. Esses tipos de intercâmbios, além de promoverem o treinamento e a troca técnica, lançam as bases para uma futura aquisição no âmbito dos programas FMS (Foreign Military Sales) ou EDA (Excess Defense Articles).
Na época, o chefe do Exército Argentino (atual Ministro da Defesa), Tenente-General Carlos Alberto Presti, enfatizou a necessidade de renovar a frota de helicópteros Bell UH-1H e recuperar capacidades perdidas, como as proporcionadas pelos helicópteros Puma, Super Puma e Chinook: “O Exército perdeu sua capacidade de operar helicópteros médios e pesados há mais de 40 anos. Os Chinooks foram deixados nas Malvinas em 1982 e nunca foram recuperados.” Sua declaração resume a magnitude do desafio atual, em que a falta de aeronaves de médio e grande porte limita o alcance operacional da Aviação do Exército.

A urgência da substituição se explica não apenas pela idade dos helicópteros Huey e Huey II, mas também pela redução progressiva das horas de voo restantes e pelo aumento dos custos de manutenção. O programa de conversão do Huey II, iniciado em 2004, que conseguiu modernizar apenas cerca de vinte unidades, prolongou a vida útil da frota, mas não atendeu à necessidade de incorporar plataformas de nova geração capazes de operar com maiores cargas úteis, segurança e eficiência. Nos últimos anos, as únicas adições concretas no segmento de helicópteros foram os helicópteros Bell 407 GXi, destinados a operações em grandes altitudes e alocados à Seção de Aviação do Exército, sediada em Mendoza. Embora representassem uma melhoria em desempenho e equipamentos, o desafio agora é preencher o nicho de transporte e assalto historicamente ocupado pelo UH-1H. Enquanto isso, a aposentadoria definitiva do sistema SA332 Super Puma (do qual apenas uma unidade permaneceu operacional das três adquiridas em meados da década de 1980) ampliou a lacuna de capacidades.
Nesse contexto, o Exército está analisando diversas alternativas para reconstruir sua frota. Uma dessas medidas envolve a retomada do contato com empresas israelenses, que em junho de 2024 apresentaram uma proposta para oferecer helicópteros UH-60L Black Hawk modernizados, provenientes do estoque excedente do Exército dos Estados Unidos. Essas aeronaves, que passam por um programa de revisão e modernização, poderiam representar uma solução intermediária de menor custo e entrega mais rápida, embora sua implementação dependa de uma realocação orçamentária e de um acordo político que garanta seu financiamento.

Em nível regional, diversos países estão avançando na modernização de seus ativos de aviação militar. O Brasil, por exemplo, apresentou o primeiro de seus doze helicópteros UH-60M Black Hawk em dezembro de 2025, adquiridos por meio do programa Fleet Management System (FMS) por US$ 950 milhões. A aquisição, aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos em 2024, representa um salto significativo nas capacidades de transporte e manobrabilidade do Exército Brasileiro. Casos como esse ilustram a tendência regional de modernização abrangente das frotas de aeronaves de serviço, em consonância com doutrinas que priorizam a mobilidade tática e a interoperabilidade.
A reativação do programa Black Hawk para o Exército Argentino exigirá, antes de tudo, vontade política e previsibilidade financeira. De acordo com a proposta orçamentária para 2026, os gastos anuais com defesa representarão apenas 0,28% do PIB, o menor nível dos últimos anos. Diante dessa margem, qualquer tentativa de relançar a licitação estará sujeita a realocações discricionárias ou gastos extraordinários. Contudo, o interesse contínuo da Força Aérea, aliado à relação bilateral constante com os Estados Unidos, pode criar as condições necessárias para que o projeto recupere o impulso.
Em última análise, o futuro do programa dependerá da capacidade do Estado argentino de definir prioridades estratégicas e sustentá-las ao longo do tempo. A modernização da Aviação do Exército não envolve apenas a substituição dos helicópteros UH-1H obsoletos, mas também a reconstrução de uma capacidade essencial para o desdobramento e a mobilidade tática. Se concretizada, a aquisição dos Black Hawks representaria muito mais do que uma atualização técnica: seria o primeiro passo tangível rumo à plena recuperação da mobilidade aérea do Exército argentino.
*Imagens utilizadas para fins ilustrativos.
Você também pode se interessar por: A Força Aérea Brasileira e a Mac Jee dão um novo passo no desenvolvimento de novos sistemas de propulsão hipersônica





